
Ela começa a pensar duas vezes antes de responder a uma mensagem, escolher uma roupa ou encontrar uma amiga.
Mede cada palavra para evitar uma discussão. Pede desculpas até quando foi ela quem se sentiu machucada. Aos poucos, a relação ocupa tanto espaço que sobra pouco lugar para suas próprias vontades.
Esse é um retrato possível de uma relação marcada por manipulação e abuso. Quando se fala em homens narcisistas, é importante fazer uma distinção: ter atitudes egoístas ou controladoras não basta para diagnosticar um transtorno de personalidade.
Esse diagnóstico exige avaliação profissional e a violência pode acontecer com ou sem ele.
Para a mulher, reconhecer o comportamento que a machuca é mais importante do que encontrar um rótulo para o parceiro.
Em algumas relações abusivas, o começo vem acompanhado de muita atenção, declarações e planos para o futuro. Depois, o cuidado passa a servir de justificativa para restringir a liberdade.
“Quero ficar com você” vira cobrança para abandonar outros vínculos.
“Estou preocupado” vira exigência de saber onde ela está o tempo inteiro. O que parecia proximidade começa a produzir medo.
Os exemplos aparecem em situações comuns. Ele exige a senha do celular, fiscaliza conversas, cobra localização em tempo real e aparece no trabalho para conferir se ela está mesmo lá.
Reclama das amigas, interfere nas roupas e cria uma discussão sempre que ela faz algo sozinha. A repetição desses comportamentos pode formar um padrão de controle que reduz a autonomia da mulher.
A desvalorização também pode entrar na rotina. Frases como “você não faz nada direito”, “ninguém vai aguentar você” ou “isso é coisa da sua cabeça” ilustram uma dinâmica em que a mulher é diminuída e levada a duvidar da própria percepção.
Quando tenta conversar, recebe acusações de que é sensível demais, ciumenta demais ou responsável pela reação dele. Com o tempo, ela pode começar a acreditar que precisa se corrigir para merecer respeito.
A intimidade pode virar outro instrumento de pressão. Ele insiste em sexo depois de uma recusa, acusa a parceira de não amá-lo ou usa ameaças de traição para conseguir o que quer.
Consentimento precisa ser livre, inclusive dentro de um casamento. Ceder por medo, culpa ou pressão é muito diferente de desejar uma relação sexual.
Não são exemplos de uma simples diferença de personalidade. São situações em que uma pessoa tenta controlar as escolhas da outra.
Sair pode ser muito mais complicado do que parece para quem está de fora. Há mulheres sem acesso ao próprio dinheiro, com filhos, sob ameaças ou sem uma rede de apoio próxima. Também pode haver afeto e esperança de mudança.

Perguntar “por que ela não vai embora?” sem olhar para essas condições deixa de lado uma parte fundamental do problema: ela precisa conseguir sair com segurança.
As marcas dessa convivência podem alcançar a saúde mental, o corpo e a vida social. A Organização Mundial da Saúde relaciona a violência por parceiro íntimo à depressão, ansiedade, dificuldades de sono, estresse pós-traumático e tentativas de suicídio.
Isso não significa que todas as mulheres desenvolverão os mesmos sintomas, mas mostra que o sofrimento precisa ser levado a sério.
Entre as consequências possíveis está viver em alerta constante. Observar o humor do parceiro, assustar-se com um barulho ou não conseguir relaxar mesmo em momentos tranquilos. Depois de experiências traumáticas, algumas mulheres também podem ter pesadelos, lembranças que surgem sem querer e evitar lugares ou situações que recordam a violência.
Esses sintomas precisam de avaliação, pois sentir sofrimento após um trauma não significa ter um transtorno de estresse pós-traumático.
Há ainda a dificuldade de confiar em si mesma. Depois de tantas críticas e acusações, decisões simples podem parecer enormes. A mulher pode sentir vergonha de contar o que viveu, afastar-se das pessoas e ter dificuldade para voltar a confiar em alguém.
Por isso, o término nem sempre encerra imediatamente o sofrimento, pois a recuperação também envolve reconstruir segurança, vínculos e autonomia.

É nesse contexto que precisamos falar sobre o risco de suicídio, sem simplificar um assunto tão sério. O suicídio tem múltiplas causas. Não é possível afirmar que um relacionamento, sozinho, determina esse desfecho. Mas estudos encontram associação entre violência por parceiro, sintomas depressivos e tentativas de suicídio em mulheres.
O risco pode aumentar quando humilhação repetida, isolamento, medo, depressão e sensação de estar presa se acumulam. A mulher pode deixar de enxergar alternativas, acreditar que não será ajudada ou sentir que virou um peso para os outros.
Desesperança, dor emocional intensa e sensação de não haver saída são sinais de alerta reconhecidos na prevenção do suicídio. Eles pedem acolhimento e atendimento, nunca julgamento.
Uma fala sobre querer morrer não deve ser tratada como exagero ou tentativa de chamar atenção. É preciso escutar, levar a sério e ajudar a pessoa a chegar a um serviço de saúde. Existe cuidado disponível, e essa sensação de estar sem saída pode mudar com proteção e tratamento.
Também precisamos reconhecer que a violência pode se agravar e, em situações extremas, chegar ao feminicídio. Ameaças de morte e escalada das agressões exigem atenção imediata.
Perseguição, inclusive depois do término, também precisa ser considerada na proteção da mulher. O diagnóstico de narcisismo não permite prever quem cometerá um crime. A avaliação deve olhar para ameaças e comportamentos concretos.
Por isso, aconselhar “termine logo” pode ser insuficiente. Quando há violência ou ameaças, buscar apoio especializado para planejar os próximos passos faz diferença.
A mulher precisa de pessoas que a escutem, de proteção e de acesso a cuidados de saúde — não de cobranças para resolver tudo sozinha.
Uma relação saudável permite discordar, dizer não, manter amizades e fazer escolhas sem medo de punição. Quando isso desaparece, é hora de olhar com atenção para o que está acontecendo.
A responsabilidade pela violência é de quem a pratica, mas as marcas que ela deixa não precisam definir o resto da vida de quem as sofreu.

Nilda Lima, terapeuta especialista em relações narcisistas
Publicado em 17/10/2026




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