IVES GANDRA

O populismo do voto: do Bolsa Família à MP das bets.

Ives Gandra

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda que unificou e ampliou os diversos programas de auxílio criados na gestão de Fernando Henrique Cardoso, de extrema importância para a proteção social, o combate à pobreza e a reinserção no mercado de trabalho; contudo, não da forma como é praticado no Brasil, pois sofreu um profundo desvirtuamento ao se transformar em mero instrumento de manutenção do poder.

A conversão de programas assistenciais em ferramentas de barganha eleitoral consolida a marca do atual governo: a troca do compromisso fiscal pelo populismo desenfreado.

Nesse sentido, quero trazer à reflexão as medidas do governo Lula para alcançar a reeleição, haja vista o aumento do valor do Bolsa Família anunciado a 17 dias das eleições.

No Brasil, o programa se estrutura de modo a não estimular grande parcela dos beneficiários a procurar trabalho ou a deixar de depender do auxílio assistencial.

As regras para o recebimento do benefício deveriam ser mais rígidas, com revisões periódicas e a exigência de busca ativa por emprego.

Bolsa Família - 13/11/2017 - Bolsa Familia - Fotografia ...

Há inúmeras empresas — em setores como a construção civil e o comércio — que oferecem vagas, mas muitos dos eventuais interessados preferem não ter o contrato registrado em carteira para não perder o benefício.

Dados do Cadastro Único, de fevereiro de 2025, indicam que 7 milhões de famílias — 34,1% do total de 20,6 milhões de beneficiários — recebem o Bolsa Família há mais de 10 anos, com maior concentração da dependência de longo prazo no Nordeste (38,8%) e no Norte (33,7%).

Em muitas localidades do interior, a subsistência informal combinada ao benefício cria uma acomodação estrutural, na qual a busca pelo emprego formal deixa de ser prioridade.

Em suma, essas famílias optam por não trabalhar com carteira assinada, têm sua casa, sua horta, seu galinheiro, não gastam muito e o benefício tornou-se um complemento.

Um programa como o Bolsa Família, destinado àqueles que estão realmente desempregados e condicionado a critérios rígidos — especialmente a exigência de procura ativa de emprego —, é fundamental.

 

Contudo, a distribuição de benefícios sem critérios, utilizada para ganhar eleições, é altamente preocupante.

No cenário atual, outro fator crítico é o expressivo endividamento público no presente mandato do governo Lula, que já se aproxima de R$ 1,5 trilhão.

A necessidade constante de tomar recursos emprestados no mercado pressiona a taxa de juros e a mantém em níveis elevados para atrair investidores.

O resultado dessa dinâmica é perverso: o setor produtivo se desestabiliza, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam, grandes empresas encerram suas atividades e o PIB não cresce.

Além disso, surgem diversas outras medidas de cunho eleitoreiro — alvo de duras críticas nos editoriais dos principais jornais do país —, que evidenciam uma total desconexão com a realidade econômica, no exato momento em que as contas públicas se encontram absolutamente estraçalhadas.

Comenta-se amplamente o caráter eleitoreiro das recentes medidas do presidente Lula.

Soma-se a isso a preocupante proximidade entre o Executivo e ministros do Supremo Tribunal Federal, o que evidencia relações que descaracterizam a própria função da Corte e geram crescente rejeição ao presidente.

Para grande parte da opinião pública, essa articulação busca evitar a apuração aprofundada do escândalo do Banco Master, episódio que, somado às irregularidades no INSS, compromete gravemente a credibilidade do governo.

Aliás, essa foi uma marca de outros governos do PT: o Mensalão, o escândalo da Petrobras e a Lava Jato.

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Apesar de muitos envolvidos terem obtido reabilitação — mesmo após confessarem crimes e devolverem dinheiro —, vemos agora episódios como o perdão de R$ 1,2 bilhão em juros de acordos.

Diante desse histórico, fica evidente que estamos diante de mais um projeto estritamente eleitoreiro.

Lula sempre negou participação no Mensalão | Foto: Reprodução/Justiça Federal do Paraná
Tudo isso me entristece muito, porque não discutimos, nestas eleições, ideias para o presente e o futuro.

Para se reeleger, o presidente Lula utiliza apenas políticas eleitoreiras e populismo, enquanto o Brasil afunda em uma crise de Poderes, caracterizada pela falta de credibilidade nas instituições.

O eleitor brasileiro terá de decidir entre um presidente que luta por todos os meios para se reeleger e permanecer no poder e os candidatos de oposição que, desprovidos da máquina pública, precisam vencer o debate no campo das ideias.

Nesse cenário, despontam quadros com propostas consistentes, como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Augusto Cury e Ronaldo Caiado — este último com a credibilidade de quem comprovou eficiência administrativa ao obter a reeleição no primeiro turno em Goiás.

Enfim, é esse o cenário em que nos encontramos: uma conjuntura na qual o presidente Lula recorre a práticas populistas e, a meu ver, demagógicas para assegurar a sua reeleição — como a recente edição da Medida Provisória contra as apostas virtuais (bets), que é apenas mais um exemplo desse oportunismo eleitoral às vésperas do pleito.

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É lamentável a realidade de um país em que a população perdeu a confiança nas suas próprias instituições, conforme demonstram recentes pesquisas.

Por isso, é perfeitamente compreensível que o ministro André Mendonça — referência de integridade no Supremo Tribunal Federal —, ao embarcar em um avião de carreira, tenha sido aplaudido de pé pelos demais passageiros.

Esse gesto sintetiza o anseio de toda a sociedade: o resgate da moralidade na gestão pública.

Queremos voltar a confiar nas instituições. Algo que, infelizmente, não se revela possível no atual cenário.

O resgate da moralidade na gestão pública é a única via para devolver a esperança ao país — missão que cabe ao eleitor exigir e resgatar soberanamente nas urnas.

Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de S. Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio-SP, ex-presidente da Acade mia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

Publicado em 29/09/2026