IRAPUAN COSTA JUNIOR

O Brasil assiste o declínio de suas universidades?

Irapuan Costa Junior

A classificação internacional das universidades do londrino QS World University Rankings deste ano, mais uma vez deixa mal a educação superior do Brasil.

Na relação das 100 melhores universidades do mundo, nenhuma brasileira se encontra, embora existam uma da Argentina, uma da Malásia, uma da Nova Zelândia, duas de Singapura, três da Coréia do Sul e nada menos que nove da Austrália.

Observe-se que Malásia e Argentina não são considerados países desenvolvidos, como os demais também não o eram, até a pouco.

Outra entidade londrina voltada para educação, a Quacquarelli Symonds, classificando as melhores universidades latino-americanas, coloca em primeiro lugar a Pontifícia Universidade Católica do Chile, à frente da Universidade de São Paulo (USP).

Carlos Chagas cientista

Universidades brasileiras, no século passado, eram mais respeitadas no mundo. No início do século, o que seria no futuro a UFRJ deu ao mundo o nome de Carlos Chagas, o primeiro cientista a descobrir todo o mecanismo de uma doença infecciosa

Nada de que possamos nos orgulhar, nessas avaliações, ressaltando ainda, para ficarmos só na América Latina, que o Chile é uma pequena nação, com população e superfície que não alcançam 10% das nossas.

As universidades brasileiras e nossos institutos de pesquisa, no século passado, eram mais respeitadas pelo mundo afora, embora não existissem as organizações internacionais de avaliação para atestá-lo.

Mas os fatos históricos falam por si.

No início do século, o que seria no futuro a Universidade Federal do Rio de Janeiro deu ao mundo o nome de Carlos Chagas, o primeiro cientista a descobrir todo o mecanismo de uma doença infecciosa.

A doença que levou seu nome – Doença de Chagas – foi completamente desvendada por ele: qual o agente infeccioso, qual o vetor, quais os hospedeiros, quais as consequências patológicas nos humanos, qual a epidemiologia.

Respeitadíssimo no exterior, não se sabe por que Chagas não recebeu o Nobel de Medicina.

César Lattes: cientista brasileiro que quase ganhou o Nobel | Foto: Reprodução

Da USP saiu o físico Cesar Lattes, que estudava raios cósmicos.

Montou um laboratório de observação na altitude, em Chacaltaya, na Bolívia, trabalhou na Inglaterra e descobriu uma partícula subatômica, o Mesón-pi, em fins da década de 1940.

Só não recebeu o Nobel porque na época o prêmio era concedido ao chefe da equipe laboratorial pesquisadora.

Embora o mérito da descoberta e publicação dos artigos que a relatavam sejam de Lattes, quem recebeu o Nobel foi seu chefe, Cecil Powell, em 1950.

Emilio Baumgart desenvolveria estudos sobre o concreto armado. A técnica se expandiria no Brasil e professores da Universidade colaborariam com universidades norte-americanas e francesas no desenvolver a modalidade, nas décadas de 1950 e 1960

Aluno e posteriormente professor da que é hoje a Universidade Federal de Lavras (minas Gerais), Alysson Paolinelli saiu do magistério para ocupar o Ministério da Agricultura em meados de 1970.

Modernizou a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), e chefiou um conjunto de pesquisas voltadas para o Cerrado brasileiro, tido até então como área agrícola improdutiva.

Descobriu ou melhorou gramíneas compatíveis com aquele tipo de solo, transformando-o em pastagens de boa qualidade e descobriu a soja adaptado às características do bioma, com alta produtividade.

Deve-se a ele, em grande parte, a posição do Brasil hoje como maior exportador de grãos. Recebeu em 2006 o prêmio da  World Food Prize Foundation  e chegou a ser indicado para o Nobel.

Alysson Paolinelli: o ministro que transformou a agricultura em sucesso mundial | Foto: Reprodução

Desde a década de 1930, a que seria no futuro Universidade Federal do Rio de Janeiro (então Universidade do Brasil) ocuparia lugar de destaque na tecnologia mundial.

Emilio Baumgart, seu aluno e posteriormente professor desenvolveria estudos em uma modalidade construtiva até então pouco explorada, o Concreto Armado.

A técnica se expandiria no Brasil e professores da Universidade, como Aderson Moreira da Rocha, Adolpho Polillo e Fernando Luís Lobo Carneiro colaborariam com universidades norte-americanas e francesas no desenvolver a modalidade, nas décadas de 1950 e 1960.

10 anos sem Oscar Niemeyer - CAU/MG – Conselho de Arquitetura e Urbanismo  de Minas Gerais

A construção de Brasília, através dos projetos arrojados de Oscar Niemeyer e realizados pelas estruturas em concreto calculadas pelo engenheiro Joaquim Cardozo, chamaria a atenção do mundo, na mesma época.

Niemeyer era também oriundo da Universidade do Brasil, vindo de sua Escola de Arquitetura e Belas Artes, enquanto Joaquim Cardozo, que também era poeta, havia se formado em 1930 na Escola de Engenharia de Pernambuco, onde também foi professor.

Niemeyer já projetara obras importantes mundo afora, a convite de vários governos e organizações, como a sede da ONU, em parceria com o célebre arquiteto franco-suíço Le Corbusier, em 1940.

Emilio Baumgart: decisivo na questão do concreto armado | Foto: Reprodução

Um fato era relatado, com certo orgulho e até alguma jactância, na escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio, quando eu lá estudava, na década de 1950:

Jorge Oscar de Mello Flores, que lecionava Mecânica dos Fluidos e Hidráulica na Escola, publicou no início da década de 1950, estudos teóricos internacionalmente.

Em um desses trabalhos, ele teve a audácia de corrigir equações publicadas por Hunter Rouse, demonstrando que elas não estavam perfeitamente adequadas à física newtoniana.

Hunter Rouse, professor da Iowa University, dos EUA, e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), era, então, provavelmente, a maior autoridade mundial na matéria. Mas teve a humildade de ir ao Rio de Janeiro e conhecer Flores.

Por mais que eu puxe pela memória nada encontro, no presente século, parecido com essas manifestações de excelência de pessoas e de instituições universitárias que acabei de alinhar.

Me penitencio, evidentemente, se algum leitor se dispuser a me corrigir e apontar suas razões.

Jorge Oscar de Mello Flôres reprodução
Jorge Oscar de Mello Flôres corrigiu pesquisador internacional || Foto:Reprodução

Organização e limpeza, nas universidades brasileiras no século passado, eram exigências indiscutíveis.

Funcionários, professores e alunos zelavam por elas.

Hoje, são cuidados abandonados.

Assustam, certas dependências das nossas universidades, pela sujeira, pelas paredes rabiscadas, pelo descuido generalizado, pelo descaso com que os responsáveis encaram esses desleixos.

Uma tristeza a mais, que se soma ao baixo desempenho educacional.

Publicado em 06/11/2026