CORONEL VIEIROS

O Rio de Janeiro continua lindo.

Avelar Lopes de Viveiros-CEL PM RR – Experiente em Segurança Pública

Gosto de levar vantagem em tudo, certo?

Leve vantagem você também … Com esta frase em uma propaganda de cigarros, o Jogador da seleção Brasileira Gerson de Oliveira Nunes ficou marcado como criador do slogan do malandro.

Na verdade Gerson não criou nada. Apenas deu vida a um personagem que o Brasileiro cultuou desde tempos remotos.

A chamada lei de Gerson, aquela que diz ser licito e desejável que se tire proveito de tudo em todas as situações, não é um imperativo da raça. É uma constatação macabra do que é ser brasileiro.

O melhor do Brasil é o brasileiro. O pior também

Nosso desejo de nos dar bem a qualquer custo, via de regra causa prejuízos a outros.

Este é o lado perverso de sermos espertinhos: para cada espertinho que nasce, surgem dois prejudicados pela esperteza alheia.

Daí, outro ditado famoso: malandro é malandro e mané é mané.

E aqui está outro dano causado pelo jeitinho nacional: o malandro é um cara simpático, agradável e até amigável. Inofensivo, eu diria. Ele só quer se dar bem: levar vantagem em tudo. Não há desejo nele de prejudicar. Logo, ele está absolvido de suas falhas morais, ou do seu caráter inexistente.

Já o Mané?! ninguém tem culpa de sua parvoice. É próprio do Mané ser ludibriado pelo malandro de plantão. Então, é quase uma obrigação do malandro enganar o Mané. Neste caso, se um dia é da caça, o outro também é.

Tudo isto não é pouca coisa, pois é justamente do bom malandro que vem o bom criminoso. Uma ideia vai gerar a outra com naturalidade. É o chamado criminoso não intencional. A vitima da sociedade. O coitadinho, fruto do coitadismo.

O traficante que é vítima do usuário. Opa! Espere aí: tem algo errado nesta frase.

Drug trafficking

Não é o tema deste texto, mas vale um parênteses para dizer que, esta frase famigerada, que o traficante é vitima do usuário, também é uma evolução do bom malandro.

Quando abrando o ato criminoso, ou suavizo as consequências de seus atos, estou diluindo a culpa socialmente. Logo nasce o conceito de vitimas da sociedade, que é a mãe da sociedade culpada. Quando esta socializaçáo  da culpa não é o bastante para justificar o bom bandido, então preciso personalizar  ou individualizar o culpado.

É, portanto, psicológico dizer: o traficante é vitima do usuário, pois assim, não só absolvo o bom criminoso, como terceirizo a sua canalhice. E então, se for pego na malandragem, já estarei eu mesmo, absolvido.

BRAZIL-CRIME-DRUGS-FAVELA-POLICE-RAID-DEMOBRAZIL-CRIME-DRUGS-FAVELA-POLICE-RAID-DEMO

O que não percebemos é que, guardado as proporções, esta inversão não se distancia de quando culpamos a mulher pelo estupro de que foi vítima, pois portou-se ou vestiu-se de forma provocativa. Ficamos chocados sem notar que o princípio é o mesmo: o criminoso inocente e a vítima culpada. Com esta atitude, reduzimos a relevância de valores éticos e morais, o que torna a sociedade uma massa de egos incapazes de reconhecer o coletivo e o respeito ao próximo. Ser malandro neste contexto deixa de ser uma opção, para tornar-se uma obrigação.

RAPIDINHA: Cheguei no Rio de Janeiro por volta das 17h. Era feriado. Embora tivéssemos decidido que chamaríamos um carro por aplicativo, optei em utilizar o táxi de um senhorzinho simpático que nos abordou. Perguntei se ele sabia onde era o hotel, ele disse que sim. Já no táxi, perguntei porque não ligou o taxímetro. – É perto, meu filho, disse ele. Então, cobramos preço fixo. 28 reais foi o valor. O mesmo trajeto de volta, me custou 13 reais no aplicativo, 8h da manhã de segunda feira. O senhorzinho simpático era o malandro. Eu, o Mané.

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Lá pelas tantas, fomos jantar. Um amigo quis fazer umas fotos na frente do restaurante. De repente, estávamos cercados por 15 meninos de menos de 12 anos. Uma moça avisou que iam nos assaltar.

Já tínhamos percebido, pois ficou muito evidente a similaridade com lobos em torno da caça. Voltamos ao restaurante e chamamos uma viatura. Os policiais nos escoltaram ao hotel.

O Sargento disse que todos aqueles meninos já foram detidos mais de uma vez. Tinham um adulto que os chefiava.

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E são extremamente violentos. Estes, são as vitimas. Nós, os culpados por eles serem assim. A impunidade nada tem a ver com isto. É o Brasil que construimos desde madame Satã. Mas esta é outra história que não vale a pena. Somos cheios de histórias que se repetem. E continuamos praticando os mesmos erros, achando que um dia tudo vai mudar.

Publicado em 01/12/2025