SEDENTARISMO

Sedentarismo x ossos: por que ficar parado acelera a perda de massa óssea.

Mulher deitada no sofá e mexendo no celular — Foto: iStock

Por Úrsula Neves, para o EU Atleta — Rio de Janeiro, RJ

Nos últimos anos, o sedentarismo se tornou um dos maiores vilões da saúde pública.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, cerca de metade dos adultos não atingiu a recomendação mínima de prática de atividade física recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 150 a 300 minutos por semana de intensidade moderada, ou de 75 a 150 minutos por semana de intensidade vigorosa.

A prática insuficiente dessas atividades se tornou uma das principais causas de perda de anos de vida saudáveis entre ambos os sexos.

O que muitas pessoas não percebem é que essa falta de movimento não compromete apenas o peso e o funcionamento de órgãos como o coração e os pulmões: ela atinge profundamente os ossos, acelerando a perda de densidade e aumentando o risco de fraturas e osteoporose, até mesmo em pessoas mais jovens.

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Como o sedentarismo enfraquece os ossos

Os ossos, ao contrário do que se imagina, são estruturas vivas e dinâmicas. Eles se renovam constantemente, em um processo equilibrado entre formação e reabsorção. Quando esse equilíbrio é rompido, seja por fatores hormonais, metabólicos ou comportamentais, o osso perde força e se torna mais frágil. E o sedentarismo está entre os principais responsáveis por esse desequilíbrio.

– Dentro do tecido ósseo, existem células chamadas osteócitos, que identificam o movimento. Elas captam o estímulo mecânico e enviam mensagens para que as células que remodelam o osso trabalhem corretamente. Quanto mais intenso o movimento ou a carga, mais forte o osso fica. Ele se adapta às necessidades da pessoa. Por outro lado, quem permanece sedentário por muito tempo, sofre a reabsorção desse osso, também controlada pela mesma célula, o osteócito. Essa célula é o maestro que controla o osso, aumentando ou inibindo a síntese proteica, dependendo do estímulo. Essa falta de movimentos leva a uma reabsorção óssea muito intensa – explica a médica endocrinologista Marise Lazaretti Castro.

O papel dos hormônios na perda óssea

Marise lembra que o equilíbrio hormonal ainda desempenha papel central nesse processo. De acordo com Marise, duas substâncias produzidas pelos osteócitos controlam a remodelação do osso. O rankl estimula as células que reabsorvem o osso (osteoclastos), enquanto a osteoprotegerina diminui essa reabsorção. O equilíbrio entre esses dois fatores é fundamental para que não ocorra perda óssea. Além disso, a falta de estímulo mecânico (atividade física) faz com que os osteócitos produzam a esclerostina, que inibe fortemente a formação óssea. De maneira indireta, outros hormônios também podem interferir nesse mecanismo.

O mais importante protetor da qualidade óssea é o estrogênio, além de outros de menor relevância. Por outro lado, existem outros hormônios que, em excesso, prejudicam a saúde óssea, como os corticoides. Tudo deve estar em equilíbrio para que os ossos fiquem fortes e saudáveis.

O sedentarismo, portanto, não apenas reduz a formação de osso novo, como ainda agrava quadros de osteopenia e osteoporose.Ossos da perna destacados durante corrida na praia — Foto: iStock

Ossos da perna destacados durante corrida na praia — Foto: iStock

– A imobilidade induz uma perda acelerada de osso, levando a fraturas. Mesmo em pessoas jovens, a falta de atividade física impede que se atinja o chamado pico de massa óssea, que ocorre entre os 20 e 30 anos. Esse é o momento em que o indivíduo adquire seu capital ósseo, que usará ao longo da vida – alerta Marise Castro.

Além dos fatores hormonais, o estilo de vida é igualmente decisivo. Dieta pobre em cálcio e proteínas, baixa exposição solar (falta de vitamina D) e uso prolongado de medicamentos como corticoides e hormônios da tireoide em excesso são os vilões mais conhecidos da saúde óssea.

– Doenças crônicas, como diabetes, reumatismos, hiperparatireoidismo e doenças pulmonares, também podem acelerar a perda de massa óssea. Especificamente no climatério, a queda dos estrogênios é fator preponderante para a perda óssea na pós-menopausa -, complementa a diretora científica da SBEM.

Consequências: fraturas, dores e articulações mais frágeis

O cirurgião ortopedista César Janovsky ressalta que o sedentarismo tem impacto direto na estrutura óssea e nas articulações. Conforme o profissional, sem impacto e contração muscular, os ossos passam a reabsorver mais cálcio do que produzem, tornando-se progressivamente mais porosos e frágeis. As articulações perdem mobilidade, a cartilagem se torna mais fina e o líquido sinovial circula menos, o que favorece rigidez e dor.

– Nos estágios iniciais, a perda de massa óssea é silenciosa. Muitos pacientes somente percebem algo errado após uma fratura por fragilidade. Alguns sinais sutis, porém, podem surgir: dores difusas, postura encurvada e fadiga muscular – observa Cesar Janovsky, que reforça a importância da densitometria óssea para detectar precocemente o problema.

Osso fraturado — Foto: iStock

Osso fraturado — Foto: iStock

Entre as lesões mais comuns em pessoas sedentárias, estão as fraturas de punho, quadril e vértebras, além de dores articulares crônicas e tendinites. Afinal, o corpo foi feito para se mover. Quando isso não acontece, perde-se força, equilíbrio e coordenação, fatores que aumentam o risco de quedas e fraturas.

A boa notícia é que o estímulo mecânico pode ser restabelecido com a prática regular de atividade física, mesmo após períodos de inatividade.

– Após uma fratura, o movimento controlado ajuda na remodelação óssea e melhora o aporte sanguíneo local. Depois da recuperação, os exercícios de carga e resistência são fundamentais para evitar novas fraturas – afirma o ortopedista.

Publicado em 03/12/2025