IRAPUAN COSTA JUNIOR

O que o governo brasileiro precisa saber: eliminado o narcotráfico, a criminalidade cairia 90%.

                                                  Irapuan Costa Junior

Jornal Opção

Perde o leitor se repiso o assunto.

Ocorre que é por demais sério para ser tratado com o menoscabo que lhe dedicam o governo federal e a dita “grande imprensa”.

Os sinais de que a atividade do crime organizado (do tráfico de drogas) está avançando a passos largos no Brasil se repetem com frequência assustadora.

Podemos nos transformar em um narcoestado, em um Estado em que os poderes constituídos são fantoches do tráfico? Não saberia dizer.

Mas o fato é que ao menos até agora o impressionante avanço das duas facções criminosas nacionais mais expressivas — Primeiro Comando da Capital (PCC, com sede em São Paulo) e o Comando Vermelho (CC, com sede no Rio de Janeiro) — não mereceu as atenções mais enérgicas do governo federal e só tem sido contido pelas polícias estaduais.

                                        Marcola, do PCC, e Fernandinho-Beira Mar: reis do crime organizado no Brasil, a partir de presídios | Fotos: Reproduções

Mais alguns recentes sinais de alerta pairam no ar, sob o quase silêncio da imprensa.

Bahia: Operação Dakovo

Em 2020, na Bahia, uma apreensão ocasional de armas contrabandeadas do Paraguai, chamou a atenção de alguém mais esclarecido na Polícia Federal, que resolveu ir mais a fundo e buscar a cooperação da polícia paraguaia.

Vale a pena saber mais sobre a Operação Dakovo | Foto: Divulgação

A cooperação policial resultou na operação, desfechada em dezembro passado, que se chamou Operação Dakovo, nome de uma cidade da Croácia, pois algumas armas apreendidas foram fabricadas naquele país.

A operação rapidamente frutificou: as polícias paraguaia e brasileira descobriram que uma empresa paraguaia (IAS — International Auto Supply) importava legalmente armas europeias e as enviava de contrabando para o PCC no Brasil, com as numerações raspadas, para dificultar a identificação da origem.

Nas buscas efetuadas encontrou-se a pista de ao menos 43 mil armas (fuzis e pistolas) legalmente importadas pela empresa.

Grande parte dessas armas, senão todas, foi enviada ilegalmente para as facções criminosas brasileiras.

Alguns fatos ligados merecem comentários. Um deles é a pouca atenção que o governo federal prestou a essa operação. Essa descoberta diz respeito a apenas uma empresa de fachada paraguaia e um pequeno intervalo de tempo (algo como três anos).

Imagine o leitor quantas empresas terão feito o mesmo nas décadas em que armas são contrabandeadas do Paraguai, como se sabe de sobra, e que hoje estão nas mãos dos bandidos.

Paraguai abastece crime organizado

Empresários brasileiros que trabalham com o Paraguai dão conta de que outra empresa paraguaia, a maior loja de armas de Assunção (Perfecta S.A.) foi fechada pela Receita Paraguaia por não ter, em uma fiscalização, conseguido explicar o destino de alguns milhares de armas desaparecidas de seu estoque físico, mas não contabilizadas como vendidas, logo com destino completamente ignorado.

Não será preciso um esforço de raciocínio muito grande para deduzir que também essas armas se encontram nos morros cariocas ou na periferia de São Paulo.

Desde a década de 1990 que policiais experimentados sabem do fluxo contínuo de armas contrabandeadas do Paraguai para o crime brasileiro, muitas delas de origem nos Estados Unidos. Note-se que essas não surgiram nas investigações da Dakovo.

Mas é preciso pensar muito para deduzir o porquê de o governo federal ter se implicado, desde o primeiro dia (o presidente Lula da Silva assinou no seu primeiro dia do último mandato decretos nesse sentido), com o armamento inofensivo dos atiradores desportivos, caçadores e colecionadores a ponto de inviabilizar essas atividades para muitos praticantes, numa verdadeira histeria capitaneada pelo Ministério da Justiça, sem se preocupar com a verdadeira ameaça das armas do tráfico.

Perdeu-se tempo e dinheiro com atiradores esportivos enquanto os piores bandidos traziam do Paraguai as armas mais modernas e mortíferas. E a “grande imprensa” aplaudindo.

A quase permissão do governo para que os traficantes se armem produz fatos próximos do absurdo: no início do mês, numa operação no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, em área tomada pelos criminosos, as forças armadas do tráfico abateram um helicóptero da Polícia Militar, uma aeronave Bell de 12 passageiros, que felizmente conseguiu fazer uma aterrissagem de emergência. Uma tragédia foi evitada por pouco.

Em meados do mês uma delegacia na Baixada Fluminense foi atacada por um grupo de traficantes para tentar libertar um ”colega”. Dois policiais ficaram feridos.

Outro sinal de alerta surge em algumas notinhas, praticamente de rodapé, sem maior destaque na imprensa, quando deviam causar a maior celeuma.

Marcola do PCC e Beira-Mar do CC

Os dois maiores chefes do tráfico, Marcola (Marcos Willians Herbas Camacho) e Fernandinho Beira-Mar (Luiz Fernando da Costa), estão presos em presídios federais ditos de segurança máxima.

Beira-Mar, do Comando Vermelho, está no presídio de Catanduvas, no Paraná e Marcola, do PCC, que estava preso em Rondônia, foi transferido para Brasília, sem explicações plausíveis para esse benefício.

Lincoln Gakiya: promotor que combate o crime organizado em São Paulo | Foto: Reprodução

Pois bem, policiais revelaram ao jornal paranaense “Gazeta do Povo” grossas ilegalidades que as diretorias dos presídios estavam cometendo para beneficiar os dois criminosos.

Marcola teria tido atendimento de luxo por odontólogos particulares para tratamento dentário estético (!) e Beira-Mar é atendido por psicólogos também particulares no interior do presídio.

Essas “bondades” são flagrantemente ilegais (contrariam frontalmente a Lei Federal 13.964/2019).

O jornal pediu esclarecimentos ao Ministério da Justiça, mas foi ignorado.

Espanta ver que criminosos da mais alta periculosidade estejam obtendo luxos ilegais dentro da prisão, o que só pode ocorrer com conhecimento e permissão de altas autoridades federais. E estas se recusam a prestar esclarecimentos.

O promotor paulista Lincoln Gakiya, provavelmente quem mais conhece o crime organizado no Brasil, alerta para um acordo de cúpula entre PCC e CV visando maior controle interno nas prisões.

Tolerância zero e o exemplo da Argentina

Patricia Bullrich: ministra da Segurança combate o narcotráfico de maneira tenaz | Foto: Divulgação

Repetimos o que dizem as verdadeiras autoridades em Segurança, policiais, promotores atuantes e juízes experimentados: eliminado o narcotráfico, a criminalidade cairia 90%.
O narcotráfico só é eliminado com tolerância zero por parte da polícia, do Ministério Público e da Justiça.

As experiências de sucesso mundo afora, seja em Nova York, seja em El Salvador, ou seja, mais recentemente na Argentina, mostram isso.

O novo governo argentino tem uma ministra da Segurança (Patricia Bullrich) que é do ramo. Mais ainda, é especialista em Segurança, tendo exercido vários cargos no setor.

No curto espaço de tempo em que está à frente do ministério (pouco mais de um ano), Patricia Bullrich montou um cerco ao narcotráfico, que opera na Argentina de modo semelhante ao que opera no Brasil: a droga vem dos países produtores fronteiriços (no caso argentino da Bolívia e do Peru), passa pelo território argentino e é exportada principalmente pelo porto de Rosário para Europa e EUA.

O cerco já deu resultados — nenhuma remessa para EUA ou Europa oriunda da Argentina foi detectada em 2024. E a criminalidade (assassinatos inclusive) em Rosário, centro operativo das facções criminosas, caiu cerca de 60% apenas em um ano. Mais um exemplo digno de ser seguido. Será?

Publicado em 07/03/2025