JOÃO NASCIMENTO

O jogo bonito ainda é brasileiro?

João Nascimento – Jornalista

O Campeonato Brasileiro de 2025 terminou com mais de 150 jogadores estrangeiros na Série A, segundo dados consolidados por plataformas como Transfermarkt.
Isso representa algo próximo de 25% do total de atletas da elite nacional, proporção inédita na história da competição.

Um número que, aliás, cresce de forma consistente.
Em 2013, eram pouco mais de 30 estrangeiros na Série A.
Em uma década, houve um aumento superior a 300%.

Contudo, trata-se de uma mudança que não é apenas quantitativa.

Ela foi institucionalizada.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF – ampliou, ao longo dos últimos anos, o limite de estrangeiros relacionados por partida.

No início eram três, depois passou para cinco, subiu para sete e, mais recentemente, chegou a nove atletas por jogo.

Ou seja, não se trata de um fenômeno espontâneo.
Claramente o sistema foi adaptado para absorvê-lo.

Donni Araujo

Donni Araújo – Comunicação, Esporte e Midia

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Uma mudança que deixou de ser exceção

Mas o movimento não se limita ao elenco de jogadores.

Em 2023 e 2024, o Brasil passou a registrar uma presença crescente de técnicos estrangeiros na Série A, algo historicamente raro.

Club Athletico Paranaense – Wikipédia, a enciclopédia livreBahia Resultados, vídeos e estatísticas - ESPN (BR)Botafogo F.R. (@botafogo) • Instagram photos and videos

Clubes como Botafogo, Flamengo, Vasco, Cruzeiro e outros passaram a alternar ou priorizar profissionais de fora do País.

Na verdade, até mais do que isso.

Pela primeira vez na história, a própria Seleção Brasileira passou a ser dirigida por um treinador estrangeiro, rompendo uma tradição que atravessou mais de um século.

Esse dado, por si só, já seria suficiente para indicar uma inflexão.

Mas ele ganha outro peso quando observado ao lado de outro indicador.

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O País ainda exporta, mas já não apenas isso

O Brasil continua sendo o maior exportador de jogadores do mundo.

Segundo relatório anual da FIFA, o país lidera há anos o número de transferências internacionais de atletas, com mais de 1.200 jogadores brasileiros atuando no exterior simultaneamente.

Em 2023, foram mais de US$ 1,1 bilhão em receitas com transferências, de acordo com o relatório “Global Transfer Report”.

É evidente que o Brasil segue fornecendo talento para o mundo.

Todavia, ao mesmo tempo, passa a importar cada vez mais peças para dentro do seu próprio sistema.

Essa combinação — exportar talento e importar estrutura — não é trivial.

Ela indica uma transformação de papel.

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O clube como parte de uma rede

São Paulo Resultados, vídeos e estatísticas - ESPN (BR)Fundação - Santos Futebol Clube

Essa mudança se torna ainda mais evidente quando se observa a alteração da propriedade dos clubes.

Desde a criação do modelo de SAF, em 2021, o futebol brasileiro passou a receber investimentos diretos de grupos estrangeiros.

Com isso, o Brasil passou a integrar redes globais de clubes. São vários os casos que mostram isso. Exemplos como:

  • Eagle Football Holdings (Botafogo)
  • 777 Partners (Vasco, posteriormente em crise)
  • City Football Group (Bahia)
  • Red Bull GmbH (Bragantino)

Essas redes operam sob uma lógica específica que se basea em três pontos.

São eles:

  • circulação de jogadores entre clubes do mesmo grupo
  • padronização de metodologias
  • decisões centralizadas fora do país

O clube deixa de ser uma unidade isolada e passa a ser um nó dentro de um sistema maior.

Savarino, jogador do Botafogo comemora seu gol durante partida contra o Bragantino no estadio Cicero De Souza Marques pelo campeonato Copa Do Brasil 2025. Foto: Anderson Romao/AGIFGonzalo Plata, jogador do Flamengo comemora seu gol durante partida contra o Internacional no estadio Beira-Rio pelo campeonato Brasileiro A 2025. Foto: Maxi Franzoi/AGIFMartin Braithwaite, jogador do Gremio comemora seu gol durante partida contra o Fortaleza no estadio Arena do Gremio pelo campeonato Brasileiro A 2025. Foto: Maxi Franzoi/AGIF

Francis Amuzu, jogador do Gremio comemora seu gol durante partida contra o Sao Jose no estadio Arena do Gremio pelo campeonato Recopa Gaucha 2025. Foto: Maxi Franzoi/AGIFBarboza, jogador do Botafogo durante partida contra o Vasco no estadio Sao Januario pelo campeonato Copa Do Brasil 2025. Foto: Thiago Ribeiro/AGIFMemphis Depay jogador do Corinthians comemora seu gol durante partida contra o America de Cali no estadio Arena Corinthians pelo campeonato Copa Sul-americana 2025. Foto: Marcello Zambrana/AGIF

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Quando o clube vira plataforma

Esse modelo, conhecido como multi-club ownership, vem se consolidando na Europa há mais de uma década e carrega a consequência importante de que as decisões esportivas deixam de ser exclusivamente locais.

Contratações, estilos de jogo, escolhas técnicas e até estratégias de formação passam a obedecer a uma lógica de portfólio.

O jogador não é apenas reforço.
É ativo.

O clube não é apenas time.
É plataforma.

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O impacto chega ao campo

Quando esse modelo chega ao Brasil, ele não altera apenas a gestão.

Ele modifica o próprio campo.

A presença crescente de estrangeiros — jogadores e técnicos — deixa de ser um debate sobre qualidade e passa a ser uma consequência operacional.

Em um sistema globalizado, tudo vira global, o mercado, o recrutamento e a tomada de decisão.

O nacional deixa de ser referência, passando a ser apenas uma variável.

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Não é apenas uma questão de qualidade

Há, evidentemente, uma leitura possível que atribui esse movimento à queda de qualidade do jogador brasileiro ou à má formação de treinadores nacionais.

Mas essa explicação, embora confortável, é incompleta.

Porque ignora o contexto.

O Brasil não deixou de formar jogadores.
Continua sendo o maior exportador do mundo.

O que mudou não foi a capacidade de produzir talento.
Foi a posição que esse talento ocupa dentro do sistema.

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Da exportação de talento à importação de modelo

Durante décadas, o Brasil não apenas exportava jogadores.

Exportava futebol.

Exportava, também, uma forma de jogar, de pensar, de improvisar.

Hoje, o fluxo se inverte parcialmente.

O Brasil continua vendendo jogadores, mas passa a importar modelo.

E modelos carregam lógica, ritmo, padrão e, principalmente, carregam decisão.

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Uma transformação que não faz barulho

O resultado é uma mudança silenciosa.

O futebol continua sendo jogado no Brasil.

A estética, em muitos momentos, ainda remete ao que sempre foi.

Mas a estrutura que sustenta esse jogo já não é a mesma.

E, quando a estrutura muda, altera o jogo junto, ainda que isso não seja imediatamente visível.

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No fim, a questão é outra

Talvez o ponto mais importante não seja quantos estrangeiros estão em campo.

Nem quantos técnicos vieram de fora.

É provável que seja algo mais simples e mais difícil de medir.

Trata-se de quem decide.

Porque, no fim, o futebol não é apenas quem joga.

Também é quem define o jogo.

E essa resposta, hoje, já não parece ser exclusivamente brasileira.

Publicado em 16/04/2026