NATAÇÃO

Daniel Dias: “Escolhi sorrir para a vida”.

Daniel Dias, ex-nadador Paralímpico, no Abre Aspas — Foto: Marcos Ribolli

Ge – Por Flávio Dilascio e Heitor Esmeriz — Campinas, SP

Ele escolheu sorrir para a vida.

Num mundo em que as pessoas com deficiência física ainda enfrentam muitas barreiras e diversos tipos de preconceito, Daniel Dias preferiu adotar o sorriso como sua maior arma.

Longe das piscinas desde 2021, quando se retirou do esporte de alto rendimento, o campineiro criado em Camanducaia, Minas Gerais, já sofreu bullying, olhares de reprovação e até foi barrado em um local público por usar prótese na perna direita.

O maior medalhista paralímpico do esporte brasileiro (foram 27 medalhas em Paralimpíadas, sendo 14 de ouro, sete de prata e seis de bronze) abriu o seu coração, falando de vida pessoal, carreira, trajetória e do seu dia a dia fora das piscinas.

— Sorrir para a vida. Essa foi minha principal escolha. Para deixar o processo mais leve, para deixar a vida mais leve. A vida tem os seus desafios, não são todos os dias que a gente está motivado, que eu acordo pronto para o treino, não são todos os dias que eu acordo e dou um sorriso. Mas são todos os dias que eu posso escolher e trazer o sentimento que o sorriso pode trazer – disse Daniel.

Raquel e Daniel com os filhos Hadassa, Daniel e Asaph  — Foto: Reprodução Instagram Daniel Dias

Casado e pai de três filhos, o ex-nadador revelou que sofreu bullying na infância por conta da sua deficiência física aparente – ele tem malformação congênita nos dois membros superiores e na perna direita. Em outro episódio da sua vida, já na adolescência, Daniel conta que foi barrado por um segurança ao tentar passar por uma porta giratória com a sua prótese.

– Quando criança, eu sofria muito preconceito, o chamado bullying hoje. Falo sobre isso nas palestras. O quanto machuca e tem que ser banido, evitado, o quanto isso tem que ser falado. Me machucou muito, me feriu muito quando criança (…). Tiveram episódios em que eu não pude entrar em um ambiente pelo detector de metal. Eu uso prótese. Eu era adolescente, fui entrar, tinha o detector, e o guarda não deixou. Sem explicação nenhuma. A explicação estava no olhar dele. Eu nasci com a deficiência, eu sei quando a pessoa me olha com respeito e quando me olha com preconceito.

Daniel Dias – Wikipédia, a enciclopédia livre

Na conversa com o ge.globo, Daniel também contou que já estava inclinado a encerrar a carreira nas Paralimpíadas de Tóquio e que a polêmica reclassificação em 2019 – foi obrigado a trocar a classe S5 pela S6, para pessoas com um grau de deficiência menor – foi o estopim para não voltar atrás na decisão. Decepcionado com a mudança forçada, ele revela frustração por não ter encerrado a carreira da forma que queria.

– Eu já estava decidido a parar. Após os Jogos de 2016, no Rio, eu já tinha começado a pensar. Em 2017, eu tiro um tempo para pensar na minha vida, no que eu vou fazer, como vai ser isso… Afinal de contas o atleta não está pronto para dizer “adeus”, “vou encerrar”, “vou pendurar a sunga”. E ali eu já tracei uma meta, a de que vai ser o meu último ciclo – disse o ex-nadador.

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Daniel também deu detalhes do episódio vivido em 2019, quando o IPC (Comitê Paralímpico Internacional) fez uma reclassificação em vários atletas, mudando-o da S5 para a S6.

– Eu me preparei para isso, mas, em 2019, quando acontece, contribui para que eu pudesse parar, porque foi muito forte. Negativamente foi muito ruim receber aquilo. Afinal de contas não eram atletas novos que estavam chegando. Eram atletas que estavam competindo há 10 anos, sete anos. Eram atletas que eu já via competindo e, de repente, esse atleta vai competir contigo, sendo que ele era duas classes acima. Isso foi me magoando muito e, ao mesmo tempo, eu olhei para a minha carreira e vi que fui muito além do que eu imaginava. Eu já entreguei muito para o esporte, então estava na hora de dar adeus e atuar em outras áreas. Então foi o conjunto que fez com que eu parasse – contou.

Publicado em 09/01/2026