IRAPUAN COSTA JUNIOR

A fantástica história do rei de Portugal que prendeu a mãe, fez um papa recuar e nomeou um bispo negro.

Esse episódio, relatado por outros cronistas, ficou conhecido como o “Caso do bispo negro”, pois o padre escolhido por Dom Afonso Henriques para o bispado era um mestiço de pele escura, chamado Martim Suleimã.

Um dos maiores escritores portugueses foi Júlio Dantas (1876-1962). Era historiador, romancista, poeta e dramaturgo.

Júlio Dantas escreveu a peça de teatro “A Ceia dos Cardeais”, a mais representada de quantas foram escritas em português, em todos os tempos. Além disso, era médico, político e diplomata. Foi embaixador no Brasil, de 1941 a 1949 e tinha um apreço especial pelo país.

Afonso Henrique: o rei de Portugal que afrontou o papa | Foto: Reprodução

Em seu livro “Pátria Portuguesa”, uma coletânea de crônicas históricas, Júlio Dantas relata um fato que teria ocorrido nos princípios do século XII, quando Portugal era ainda um condado da Galícia e ensaiava sua independência, com o conde Afonso Henriques derrotando as tropas de sua mãe, D. Tereza de Leão na batalha de São Mamede (1128) e segundo a lenda, aprisionando-a no castelo de Lanhoso (hoje no distrito de Braga). A crônica (que alguns historiadores alegam ser apenas lenda) tem o título de “Dom Cardeal” e será resumida a seguir.

D. Tereza, aprisionada pelo filho, D. Afonso Henriques (já então tido como rei por seus homens de armas), havia encaminhado uma carta ao papa João XIX pedindo que a socorresse e libertasse.

O papa enviou então a Portugal um cardeal, que viajou acompanhado de um sobrinho, para admoestar D. Afonso Henriques e fazer com que ele libertasse D. Tereza. O cardeal tinha licença papal para lançar a excomunhão não só sobre D. Afonso Henriques, como sobre todo Portugal, caso não fosse atendido.

O enviado do papa vai encontrar D. Afonso Henriques em Coimbra, onde está vivendo.

Segundo Júlio Dantas, D. Afonso pergunta ao cardeal se o papa lhe envia alguma ajuda, de que ele necessita, para libertar as terras ainda ocupadas pelos muçulmanos, e devolvê-las à cristandade.

O cardeal apresenta-lhe as falas de D. João XIX, exortando-o a libertar a mãe, e argumentando que a ação de rebeldia de D. Afonso poderia ser entendida como heresia, caso desconhecesse os pedidos, quase ordens, do papa.

D. Afonso Henriques se enfurece, rasga a túnica e mostra ao cardeal as cicatrizes no peito, obtidas nas guerras contra os mouros. E aos berros de “herege sou eu, d. cardeal?” põe a correr o enviado do papa.

Júlio Dantas: escritor português | Foto: Reprodução

No alvorecer do dia seguinte, D. Afonso Henriques é despertado e informado que o cardeal pela madrugada deixou Coimbra, acompanhado do sobrinho e de serviçais e se dirigia a Roma, levando consigo os dízimos e esmolas que vinha coletando pela viagem, não sem antes excomungar D. Afonso Henriques e Portugal.

Fica a sabendo que a notícia já se espalhava e que a população, de uma religiosidade muito profunda e crente, acreditando que a maldição papal reverteria em perda das colheitas e fome, já se desesperava.

O rei toma suas armas, monta imediatamente a cavalo e vai cercar o cardeal, antes que deixe terras portuguesas. Alcançando-o, faz com que desmonte de seu cavalo, encosta-lhe uma adaga na garganta e diz que se paramente e retire a maldição, sob pena de morrer ali mesmo.

O cardeal, apavorado, toma suas vestes, e, no melhor de seu latim, retira todas as penas e maldições que em nome do papa havia lançado. Já vai montar, quando D. Afonso lhe toma os animais carregados com as dádivas que havia amealhado em sua viagem e que se aprestava a levar a Roma.

“Roma é rica, e Portugal é pobre. Fica tudo aqui”, diz D. Afonso. Apressado para escapar, o cardeal monta e o sobrinho faz o mesmo. Dom Afonso Henriques, porém, arranca o rapaz da montaria e o sojiga: “Fica aqui seu sobrinho de garantia”. “Se em quatro meses não vem uma concordância do Papa, vai-se-lhe embora a cabeça.”. A carta papal viria antes do prazo fatal.

O relato de Duarte Galvão

Duarte Galvão (1446-1517), fidalgo da corte portuguesa, conde e cronista-mor do reino, relata o episódio com algumas diferenças, ainda que pequenas: o cardeal enviado a D. Afonso Henriques seria o próprio bispo de Coimbra, que se encontrava em Roma quando lá chegou a carta de D. Tereza de Leão.

Afonso Henriques: o rei português teve coragem e nomeou um bispo negro | Foto: Reprodução

O bispo, que conhecia o gênio explosivo de D. Afonso Henriques, já chegara amedrontado para a entrevista com o rei.

Mesmo porque, avisado de sua vinda e das exigências de obediência, D. Afonso Henriques havia comentado que, se o bispo lhe estendesse a mão para beijar, ele “tomaria da espada e a cortaria pelo côvado (cotovelo)”.

Esse comentário havia chegado ao bispo, que se abstivera de estender o braço, transmitira as ordens do papa, e diante da fúria do rei, se retirara, reunira os clérigos locais, lançara a excomunhão e se abalara para Roma, à meia noite daquela mesma data, para ser alcançado por D. Afonso Henriques pela madrugada, como relata Duarte Galvão, coincidindo com Júlio Dantas.

Mas antes da saída, D. Afonso Henriques também reúne os clérigos, e entre eles nomeia um bispo, significando que não mais reconhecia a autoridade do bispo de Coimbra.

Esse episódio, relatado por outros cronistas, ficou conhecido como o “Caso do bispo negro”, pois o padre escolhido por Dom Afonso Henriques para o bispado era um mestiço de pele escura, chamado Martim Suleimã.

Diogo Freitas do Amaral (1941-2019), biógrafo de D. Afonso Henriques, põe em dúvida os acontecimentos acima. Acreditava que o respeito devotado à época ao papa e a Roma seria inibidor.

Mas Duarte Galvão parece acreditar na lenda, ou ter documentos para validá-la. Tanto que a descreve em detalhes, inclusive com o relato e a justificativa de desculpas do cardeal ao Santo Padre, que vale a pena levar aos leitores, na grafia original da época, tal como a escreveu, quinhentos anos atrás, o célebre Duarte Galvão.

“Senhor Santo Padre! Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fora minha, eu lh’a deixara e dera de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como ele é, ter-vos uma mão no cabeção e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o seu cavallo, não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado por escapardes da morte; e portanto não me deveis culpar.”

Ainda segundo Duarte Galvão, o papa absorveu as explosões de D. Afonso Henriques, como absolveu o bispo, agora ex de Coimbra, que permaneceu em Roma. Tiveram ambos convivência tolerante com o irascível rei, durante seu longo (1143-1185) reinado.

O relato do historiador:

“Então outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal a quiz e mandou-a a El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei mandou seu sobrinho mui honradamente como compria, dando-lhe muito. E por causa disto foi depois este Cardeal sempre tanto amigo d’El-Rei D. Affonso que todas as cousas que ele havia mister da Corte lh´as fazia e acabava com o Papa. E fez El-Rei D. Affonso enquanto viveo arcebispos e bispos em sua terra quaes ele quiz.”

Entenda como ocorre a influência de Gramsci na esquerda brasileira

Chegaremos um dia à terceira fase gramsciana, a da tomada do poder total, como na Venezuela? Esperamos que não. Lutemos para que não. Mas chegamos quase lá
Antonio Gramsci: filósofo que repensou o marxismo na Itália | Foto: Reprodução

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No ano de 2013, convidado pela Associação dos Diplomados pela Escola Superior de Guerra (Adesg), proferi uma palestra sobre o filosofo comunista italiano Antônio Gramsci (1891-1937) e sua influência na política brasileira recente. Resumo para os leitores do Jornal Opção o que afirmei na ocasião.

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Antônio Gramsci poderia ser chamado de estrategista do mal, pois sua concepção de tomada do poder pelo partido comunista, chamada concepção hegemonista, era muito mais lúcida do que a concepção de Marx (chamada economicista) e do que a de Lênin (chamada mecanicista).

Gramsci, era, no meu entender, o maior filosofo comunista, pois mostrara mais acertos do que Marx, Engels e Lênin ao formular uma teoria viável para o comunismo chegar ao poder.

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Enquanto Marx afirmava que o comunismo ascenderia pela crise do capitalismo, com patrões cada vez mais ricos e operários cada vez mais pobres, até uma revolta proletária, e Lênin acreditava na tomada do poder pelas armas, coisas que não aconteceriam, Gramsci afirmava que a chegada ao poder teria que se dar por uma mudança profunda na cultura social, colocando em jogo as crenças e tradições existentes nas sociedades democráticas (capitalistas, dizia ele), desestabilizando essas sociedades, de modo a introduzir nelas uma nova cultura, ditada pelo partido comunista, permitindo que ele passasse a ser, pela opinião dominante (hegemonia) o novo dirigente social (novo bloco histórico), no lugar do governo burguês (antigo bloco histórico), com uma sociedade civil já conformada, agora dominada pela crença partidária comunista.

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Gramsci analisava que a tomada de poder dar-se-ia em três fases, uma econômico-corporativa, em que o partido comunista, travestido de democrático faria alianças com outros partidos e ocuparia os postos que pudesse em todas as esferas da sociedade (legislativo, judiciário, executivo, sindicatos, igreja, meio acadêmico, meio artístico, imprensa etc.). Seguir-se-ia a fase hegemônica, em que deveria existir um intenso trabalho de doutrinação, usando os postos ocupados, para modificar moral e culturalmente a sociedade, desagregando a crença burguesa, fazendo que novos comportamentos e nova maneira de existir acabassem aceitos pela sociedade, de tal modo que, na terceira fase, a fase estatal, se desse uma tomada de poder pelo partido sem maiores reações dessa mesma sociedade.

Gramsci não falou do exercício do poder, uma vez conquistado, e tendo lançado no papel suas ideias nas décadas de 1920 e 1930 (faleceu em 1937), não poderia prever o fracasso econômico e político do comunismo, que de certa forma esteve presente em mais de quarenta países e em nenhum conseguiu o sucesso prometido por seus profetas. Foi escorraçado em todos os lugares onde a sociedade se sentiu forte o bastante para expulsá-lo.

Persiste numa Cuba miserável, numa Venezuela destroçada, numa Coreia do Norte faminta, no Vietnã e no Laos estagnados e numa China de economia inteiramente capitalista, embora politicamente seja uma tirania comunista, e com mão de ferro.

O Brasil teve a infelicidade de ser um dos países no qual os ensinamentos de Gramsci chegaram em primeiro lugar.

Suas obras foram traduzidas por intelectuais comunistas no exílio e publicadas no Brasil já em 1966, em pleno regime militar, pelo editor comunista Ênio Silveira (Editora Civilização Brasileira).

Logo se difundiram pelos intelectuais clássicos da esquerda brasileira, que aqui permaneciam, ou que, exilados, voltariam na década de 1970.

Como o regime militar brasileiro foi brando, o avanço das esquerdas, principalmente na mídia, nas universidades e na Igreja Católica, se deu já nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Na década de 1990, com a coordenação do Foro de São Paulo e o governo Fernando Henrique, e na década seguinte, com os governos petistas, a ocupação se estendeu ao Legislativo, ao Executivo e ao Judiciário, inclusive aos tribunais superiores.

Em 2013, quando proferia a palestra, (estávamos no governo Dilma Rousseff), fui inquirido em que fase estávamos, no cronograma gramsciano.

Disse que os comunistas (ou socialistas, seu eufemismo para se livrar do estigma stalinista) haviam chegado ao governo, mas não ao poder, mas que sem dúvida haviam superado a primeira fase e já estávamos em plena segunda fase — a da hegemonia.

Comprovava essa afirmação a penetração esquerdista na imprensa, na universidade e em outros setores da sociedade, onde os efeitos das ações gramscianas se faziam sentir cada vez mais perturbadoras.

Tudo aquilo que se acreditava ser bom, belo e verdadeiro em nossa sociedade tradicional estava sob ataque. A marginalidade seria considerada vítima da sociedade. O aparato policial, truculento e servidor das elites. A infância, sexualizada e confundida. A juventude inimputável, mesmo que cometesse os piores crimes. O encarceramento deveria ser minimizado e bandidos libertados. A religião, distorcida e ridicularizada, quando não pudesse ser ideologizada. A família tradicional, para os seguidores de Gramsci, teria que desaparecer.

Um deputado do PC do B chegou a propor projeto de lei considerando família qualquer associação de pessoas, inclusive as incestuosas. Pregava-se a liberação total das drogas, e a licenciosidade e pornografia estavam nos espetáculos dito artísticos.

A desobediência aos pais se institucionalizava, e as correções paterna e materna dos filhos eram todas criminalizadas. A educação dos filhos passava a ser responsabilidade do Estado e sua instrução passava a ser predominantemente ideológica, não profissional, mormente nas faculdades.

Em particular, como reflexo dessas ações, a educação brasileira despencava, nos três níveis de ensino, o que teria reflexos graves no futuro.

Como a sociedade brasileira na média era conservadora, eu previa (em 2013) que teríamos num horizonte não muito distante, embates sérios no campo político, não descartando incidentes mais graves. Estes felizmente não ocorreram, mas ocorreu uma reação social que elegeu um governo conservador, contra toda expectativa da esquerda, que já se julgava tocando o poder. E a esquerda não absorveu a derrota, tentou uma impugnação eleitoral não sucedida e utilizou a desinformação, uma das ferramentas mais poderosas de que dispõe, para contestá-la. Sem falar numa tentativa de assassinato do então candidato conservador, na reta final de campanha, nunca esclarecida.

O aparelhamento da imprensa, da universidade, do meio artístico e até de franjas do Judiciário funcionou como obstáculo para aquele governo conservador no campo da ação e da opinião.

As esquerdas só não conseguiram uma desestabilidade do Executivo por ter exagerado na dose, ocasionando uma percepção social de que faziam oposição a todo custo.

Mas os partidos de base marxista se apoiavam no Judiciário, de modo a criar embaraços na ação de governo, numa tentativa de engessar suas ações. Exemplos: o presidente foi impedido de exercer ações de controle da pandemia do Coronavírus, que por decisão judicial foram transferidas para estados e municípios, não conseguiu exercer sua atribuição constitucional de nomear um auxiliar na Polícia Federal e se viu obrigado, na nomeação de reitor para universidade federal em lista tríplice, a escolher o primeiro colocado, como se a lista fosse uninominal.

Os “intelectuais orgânicos” de que fala Gramsci (qualquer ignorante, mas capaz de uma ação que contribua para modificar a sociedade no sentido desejado pelas esquerdas) pululavam. Hoje, com a volta das esquerdas ao governo, toda cultura tradicional está sob censura, seja no que diz respeito à composição familiar, seja na prática religiosa, seja na atividade artística, seja na educação infantil (onde já se quer até propor o ensino de práticas sexuais não ortodoxas) ou na educação universitária.

A corrupção voltou a correr solta, antigos corruptos foram descondenados. Corrigir essas distorções vai demandar paciência e um enorme trabalho de reversão da deterioração educacional praticada nos últimos quarenta anos.

Chegaremos um dia à terceira fase gramsciana, a da tomada do poder total, como na Venezuela? Esperamos que não. Lutemos para que não. Mas chegamos quase lá, e ela estará praticamente consolidada se as esquerdas se mantiverem no poder nas eleições do ano que vem. Para isso contam com a imprensa, possivelmente com a justiça eleitoral e com um derrame irresponsável de benesses sociais. Além de dinheiro, muito dinheiro.

Publicado em 26/06/2025