DIABETES

Remissão do diabetes tipo 2 pode deixar de ser sonho e se tornar realidade.

O diabetes tipo 2 é uma das doenças crônicas mais prevalentes do século.

Segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), mais de 537 milhões de adultos vivem com a condição no mundo, e o Brasil ocupa o sexto lugar no ranking global, com cerca de 16,8 milhões de pessoas diagnosticadas.

Dados do Ministério da Saúde indicam que as mulheres representam a maioria dos casos, com maior incidência após os 50 anos, enquanto os homens tendem a apresentar complicações cardiovasculares mais graves relacionadas à doença.

Mas, ao contrário do que se pensava há alguns anos, o diabetes tipo 2 pode entrar em remissão, uma fase em que o paciente mantém níveis normais de glicose sem necessidade de medicamentos. “Hoje, a ciência já fala em remissão e não apenas em controle do diabetes tipo 2. Isso muda completamente a perspectiva do tratamento”, explica a endocrinologista e metabologista Dra. Elaine Dias JK, PhD pela USP.

Essa mudança de paradigma é resultado direto da combinação entre novos medicamentos, avanços científicos e transformações no estilo de vida. Estudos publicados na revista The lancet diabetes e endocrinology mostram que a perda de 10% a 15% do peso corporal pode induzir a remissão do diabetes tipo 2 em até 60% dos pacientes recém diagnosticados. Esse efeito tem sido potencializado por medicamentos modernos, como os agonistas de GLP-1 e GIP, que atuam na regulação do apetite, na liberação de insulina e na melhora da sensibilidade periférica a glicose.

Entre as terapias mais promissoras está o tirzepatida, comercialmente conhecida como Mounjaro, um agonista duplo (GLP-1 e GIP) que demonstrou, em estudos clínicos, uma perda média de 22,5% do peso corporal em pacientes com obesidade e melhora significativa no controle glicêmico. Outro destaque é a Retatrutida, um agonista triplo (GLP-1, GIP e glucagon) ainda em fase 2 de testes, que tem apresentado resultados ainda mais expressivos: redução de até 24% do peso corporal e melhora acentuada da sensibilidade à insulina. A previsão é que esse medicamento esteja disponível no mercado internacional a partir de 2026, mediante aprovação regulatória.

Apesar do otimismo com as novas terapias, a Dra. Elaine alerta para o uso inadequado dessas substâncias fora do ambiente médico. O aumento da popularidade das chamadas “canetas injetáveis” tem levado à venda irregular e até à falsificação de produtos. “Há uma banalização perigosa, com versões manipuladas e prescrições inadequadas. É importante reforçar que esses medicamentos não são milagrosos e exigem acompanhamento médico, suporte nutricional e exercício físico regular”, enfatiza.

Além dos medicamentos, a ciência também tem avançado em novas formas de diagnóstico e acompanhamento do diabetes tipo 2. Pesquisas do Klick Labs, publicadas na revista Mayo clinic proceedings: digital health, apontam que a análise da voz, associada a sistemas de inteligência artificial, pode ajudar a identificar alterações metabólicas típicas da doença. O estudo observou que pequenas variações no ritmo, na frequência e na entonação da fala refletem mudanças fisiológicas relacionadas ao controle glicêmico, alcançando resultados promissores em precisão tanto para homens quanto para mulheres.

Mas, mesmo com tantos avanços tecnológicos e científicos, especialistas ressaltam que o sucesso do tratamento continua dependendo da constância e da força física. Exercícios de resistência, como a musculação, são fundamentais para preservar a massa magra durante o uso de medicamentos que trazem a rápida perda de peso.

No Congresso Internacional de Diabetes de 2025 (CSBD 2025), os especialistas reforçaram a importância de incluir a atividade física como parte essencial do tratamento, com prescrição individualizada de tipo, intensidade, duração e frequência dos exercícios, sempre respeitando as condições e limitações de cada paciente. “O músculo é um grande aliado no controle do açúcar no sangue. Ele ajuda a aumentar a sensibilidade à insulina e é fundamental para evitar o efeito sanfona e o reganho de peso”, explica a Dra. Elaine.

Esse olhar mais integrado entre ciência, movimento, tecnologia e medicina marca o futuro do tratamento do diabetes tipo 2. Pesquisas apresentadas no mesmo congresso destacaram que os agonistas de GLP-1 e os inibidores de SGLT2 (uma classe de medicamentos que bloqueia a reabsorção de glicose pelos rins, ajudando a eliminar o excesso de açúcar pela urina) não apenas reduzem a glicemia, mas também diminuem o risco de eventos cardiovasculares e renais, ampliando o impacto positivo dessas terapias. Para a médica, Dra. Elaine, o caminho está em unir o melhor dos mundos: tecnologia, medicamentos e estilo de vida. “Estamos entrando em uma era em que o paciente pode voltar a ter esperança real de viver sem os efeitos da doença.

A remissão é possível e a ciência está mostrando o caminho”, conclui a endocrinologista.

Dra. Elaine Dias JK

Publicado em 12/11/2025