FUTSAL

Árbitros com deficiência têm futsal como meio de sociabilidade.

Adriano Meus (segundo, a partir da dir.) em jogo da categoria sub-20 em Uruguaiana — Foto: Adriano Meus / Arquivo Pessoal

Adriano Meus (segundo, a partir da dir.) em jogo da categoria sub-20 em Uruguaiana — Foto: Adriano Meus / Arquivo Pessoal

Ge – Por Rafael Favero — Porto Alegre

A relação prazerosa com o esporte foi abalada pela primeira vez em 2021. Diabético, Sironi precisou fazer as primeiras amputações na perna direita. Sem prótese, passou a depender da cadeira de rodas para se locomover. Entretanto, decidiu persistir na carreira de árbitro. Em junho deste ano, conseguiu uma prótese pelo SUS, mas já pensa em uma rifa para adquirir outra de melhor qualidade.

— Como dizem os mais veteranos, isso é uma cachaça que a gente nunca larga. Envolve muito a questão da sociabilidade, de poder continuar convivendo com os meus antigos colegas, e os novos também. Além disso, o futsal é uma paixão nacional. Apesar de ter um caráter amador, mexe com a paixão de muita gente — explica.

Aposentado por invalidez em função da diabete, Sironi utiliza a arbitragem para ter renda extra. Os valores recebidos para compor a escala variam por categoria. Na Série A, esta taxa gira em torno de R$ 300 por jogo.

Adriano Meus também complementa a aposentadoria nas quadras. Perdeu o braço esquerdo em um acidente de trator, na infância, em uma lavoura de arroz onde o pai trabalhava em Artigas, no Uruguai.

Alexsandro Sironi em jogo da Liga Gaúcha de Futsal entre Sercca e ASF, pela Série A da Liga Gaúcha de Futsal, no município de Casca — Foto: Vinicius Gayeski / Sercca / Divulgação

Gostava de ser goleiro no futsal, mas já se voluntariava para apitar nos jogos interséries da escola. Meus afirma que, além de algum comentário mais debochado lá ou cá, é respeitado nos ginásios por onde passa. Ele atua como árbitro principal, auxiliar e cronometrista.

— Aqui em Itaqui (cidade da Fronteira Oeste), os caras respeitam a gente. Até porque me dou muito bem com o pessoal que joga nos times. E fora daqui, o pessoal também já conhece a gente — comenta.

Para a vice-presidente do Conselho Estadual das Pessoas com Deficiência (Coepede) do Rio Grande do Sul, Cátia Vieira, histórias de inclusão mostram que o esporte não está limitado à competitividade. Os laços criados neste meio é que devem ser valorizados.

— Estar integrado ao esporte significa autoestima, acreditar que é capaz de se superar e ver o seu potencial. Temos pessoas com deficiência em todas as modalidades, natação, skate, corrida, futsal, ciclismo, atletismo. Existe a competitividade, mas o mais importante é a amizade que se cria. O resultado é só um detalhe em meio à sociabilidade — analisa Cátia.

Tanto Meus quanto Sironi comentam que só conseguem se manter na carreira devido à compreensão dos colegas.

— Nos colocam em escalas junto com outros árbitros que têm carro, para garantir nossa ida aos jogos — conta Meus.

— A parceria da equipe de arbitragem é fundamental para o sucesso de todos — completa Sironi.

Com esse apoio coletivo e a força de vontade individual, problemas de acessibilidade nos ginásios são mais facilmente vencidos, como degraus altos, ausência de rampas e banheiros sem adaptação. A presença de uma pessoa, contudo, incentiva a reflexão sobre a necessidade de se melhorar estruturas.

— Já temos essa preocupação com acessibilidade com equipes das séries A, B e C e de algumas categorias de base. Somos bem recebidos pelas equipes, que dizem que não tem acessibilidade em algumas situações, mas que vão providenciar — conta o cronometrista.

E Sironi deixa um recado para quem, a partir de hoje, conheceu a trajetória dele:

“Nunca desistam do sonho de vocês. Sempre acreditem que o dia de vocês vai chegar. Fazendo do jogo do sub-9 ao jogo da Série A o mais importante da vida de vocês.”

Publicado em 11/10/2025