Fotografias são potentes. Elas são capazes de capturar um instante e torná-lo eterno. Ações e expressões se tornam heranças para a posteridade. No esporte, as fotografias cristalizam anos de sacrifício dos atletas, quem sabe para uma cena de glória. E engana-se quem limita as fotografias apenas ao que se vê. Dentre o muito que ensinam, os Jogos Paralímpicos provam que belas imagens não dependem da visão, por mais paradoxal que soe. A lição é dada por João Maia, fotógrafo cego que registra os momentos de Paris 2024.
João Maia está presente em sua terceira edição dos Jogos Paralímpicos. Antes, tinha se tornado o primeiro fotógrafo cego a capturar as imagens da Rio 2016 e de Tóquio 2020. Paris 2024 garante uma nova oportunidade para o piauiense apresentar seu talento, num momento em que o reconhecimento permite que ele faça palestras, ofereça workshops, protagonize exposições e, mais importante, inspire pessoas. A fotografia de João é potente não somente pelas imagens eternizadas, mas também pela maneira como são captadas.
“A fotografia cega é uma forma de experimentar as nossas percepções, que estão latentes em cada um. Cada um tem a sua percepção, e ela pode ser explorada melhor quando você tem a ausência de uma. No meu caso, a ausência é da visão, mas eu posso estimular mais a minha audição, meu tato, meu olfato, meu paladar”, contou João Maia, em entrevista exclusiva ao Olympics.com.
Os ouvidos são os principais aliados de João Maia em suas fotografias. Ele fica atento aos sons para clicar os momentos. E no esporte, em que os ruídos muitas vezes são inerentes aos movimentos e emoções, suas imagens são cheias de ação e sentimento. Em Paris, João conta com o apoio de um assistente, que descreve o ambiente. Relata cores, texturas, ângulos e expressões para que o fotógrafo absorva ao máximo. Já sua câmera possui adaptações de acessibilidade.
O talento de João Maia se sobressai a cada fotografia. A sensibilidade e o zelo são marcas do fotógrafo, presentes independentemente da ausência de visão. Ele ‘fotografa com o coração’, como gosta de dizer. “O nosso corpo dá sinais. E o sinal de quando o coração acelera, bate forte, quando a gente se emociona… Por isso minha fotografia é com o coração”, afirma o fotógrafo de 49 anos.
João cita como exemplo os pênaltis entre Brasil e Argentina na semifinal do futebol de cegos: “O coração em cada pênalti disparava! Aí a gente se colocava no lugar daquele atleta, batendo aquele pênalti. Quando efetuava o gol, era uma alegria só, uma explosão de sentimentos. Mas também quando o Ricardinho foi o último que bateu o pênalti e errou, poxa, o coração ficou muito triste”.
João Maia encabeça o projeto Fotografia Cega, em que aproveita seu conhecimento técnico e sua abordagem inovadora para promover práticas inclusivas. O fotógrafo também é conselheiro da Fundação Dorina Nowill para Cegos. João integra exposições nacionais e internacionais. Atualmente, as obras do brasileiro estão expostas no Instituto para Jovens Cegos (INJA) – Louis Braille, em Paris, com chancela do Comitê Organizador de Paris 2024, e também na Unibes Cultural, em São Paulo.
Confira abaixo mais detalhes do trabalho de João Maia na entrevista exclusiva e também algumas de suas fotografias capturadas em Paris 2024, gentilmente cedidas.
Publicado em 07072025


